domingo, 4 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010

A procura da verdade na arte em "La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha"
O sentido da narrativa de "Oedipe" reside na ausência dos elementos característicos do romance policial, criados pelo autor e esperados pelo leitor. Todas as expectativas do leitor são frustradas desde o início do conto - em consequência, tem de procurar o sentido da narrativa fora do quadro tradicional do romance policial. É nesta busca, que faz de "Oedipe" uma obra-prima da reflexão metaliterária, que se constitui o sentido do texto. Este corresponde ao sistema da "carta roubada" de E. A. Poe, que está presente como sinal da sua ausência. Em "Oedipe" são rejeitadas duas concepções de literatura: literatura como mera cópia da realidade, mas também a literatura que se entende como criando a sua própria realidade, imanente a si própria e independente de qualquer outra realidade. A inclusão do leitor aponta para a verdadeira problemática do conto: trata-se em "Oedipe" do efeito ("Wirkung") da literatura. Esta questão da realidade da literatura liga-se à questão política da crítica ao culto da personalidade (esta crítica é acentuada por Delf Schmidt como crítica também à concepção dogmática do realismo socialista). Aragon critica aqui também uma concepção demasiado estreita de "contemporaneidade" na literatura e arte por não deixar, em sua opinião, espaço para a invenção, antecipação e descoberta. Acentua, no entanto, que a designação "literatura contemporânea" é uma tautologia, pois todos os textos se referem, em última análise, à contemporaneidade, ao presente.
Aragon coloca em "Oedipe" a questão do efeito da literatura, questionando simultaneamente a relação da literatura com a realidade. O texto pergunta como se poderia estimular a participação do leitor no acontecer textual - tanto mais interessante se torna assim a reacção dos críticos, ao interpretar "Oedipe" como a narrativa de um louco. Aquilo que se critica com esta paródia do romance policial é a concepção da vida humana como absurda. Rei Édipo e Macbeth são os exemplos mais acabados desta mundivisão. No "Terceiro conto da pasta vermelha" criticam-se tanto o "acto gratuito" de Gide como o entendimento de Camus de "absurdo". Pois o que seria a vida de alguém cujo curso de vida estivesse predeterminado, a não ser uma história absurda, "a tale / Told by an idiot, full of sound and fury, / Signifying nothing." Aragon tenta fazer com que a sua personagem dê um sentido ao mundo que habita e à sua própria existência, formulando deste modo em "Oedipe" a tese do anti-fatalismo.
No mito clássico, a verdade é equiparada a uma predeterminação, a uma fatalidade inelutável, através do enigma da esfinge e do oráculo de Tirésias. Em "Oedipe", Aragon distancia-se desta predestinação e fatalismo. O "acto gratuito" de André Gide é uma primeira tentativa de afastamento do mito, da predeterminação, mas apenas como pura negação. O "acte gratuit", como oposto extremo do mito, não produz mais nada a não ser um outro mito, o da liberdade individual, ou da ilusão desta liberdade. Em Albert Camus o mito é reconstruído com base na pergunta humanista do que deve o ser humano fazer numa época que é, ela mesma, um mito. O mundo é aceite, apesar de ser um mito. As concepções de "acto gratuito" (Gide) e de "absurdo" (Camus) não constituem para Aragon uma solução, em vez disso ele propõe uma desconstrução do mito. A dimensão de texto aberto de "Oedipe" (um texto que implica mais activamente o leitor na constituição de sentido) coloca o leitor num novo espaço de tensões e liberta-o de uma verdade predeterminada, sem no entanto lhe propor uma solução. O leitor é que terá de se libertar do mito (também do culto da personalidade), pois o texto exige a maioridade do leitor. O romance psicológico é igualmente criticado, porque o autor conhece a "verdade" e se limita a descrever o decurso da acção. O romance de juventude de Aragon Anicet ou le panorama. Roman e o período surrealista funcionam, neste contexto, como uma primeira tentativa de libertação de clichés e convenções na prática ficcional.
(a continuar)
Imagens e créditos: Albert Camus (http://www.literatur-nobelpreis.de/), André Gide (http://www.myspace.com/)
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domingo, 27 de junho de 2010
A procura da verdade na arte em "La Mise à mort" de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" Um dos primeiros autores a escrever sobre a faceta analítica do Rei Édipo de Sófocles foi Schiller. Segundo ele, esta tragédia é a recapitulação daquilo que já tinha acontecido quando a peça começa e, não podendo ser modificado, é analisado no decurso da acção. Aproximámo-nos gradualmente da questão central tratada no conto "Oedipe", que tinha já sido aflorada em Rei Édipo e Les Gommes: a realidade da literatura, a liberdade individual e o determinismo são temas que estão aqui intimamente ligados, tal como na tragédia de Sófocles e em Macbeth de Shakespeare. Podemos agora compreender o texto em epígrafe, uma citação do poema "In lieblicher Bläue..." de Hölderlin: o que falta a Oedipe é o direito a escrever a sua própria história, a sua própria vida. O início do conto mostra que o problema central não é aqui o assassínio - as estruturas do romance policial apenas têm significado pela sua ausência, tal como a "carta roubada" de E. A. Poe. Estas estruturas apenas estão presentes em "Oedipe" como um estratagema para mascarar e esconder o tema central do conto: a dignidade e o sentido da literatura, que não podem residir em ser cópia ou reprodução da realidade, como se fossem um "texto reescrito".
A rejeição de um destino pré-determinado corresponde em "Oedipe" à ausência do enigma. A esfinge não faz a Oedipe perguntas ameaçadoras, como no mito clássico (Édipo tem de decifrar o enigma ou morrer), e está em processo de decomposição. A procura da verdade, que no mito de Édipo corresponde ao decifrar do enigma da esfinge, poderá compreender-se neste terceiro "Conto da pasta vermelha" dentro do contexto intertextual.
A recepção do mito de Édipo torna-se clara nesta narrativa de Aragon através da recepção do romance de Robbe-Grillet Les Gommes. Robbe-Grillet transformou a história de Édipo num romance policial. Muitos dos elementos que tinham sido identificados pelos críticos como alusões ao romance da juventude de Aragon Anicet ou le panorama. Roman tornam-se compreensíveis através da mediação de Les Gommes. Robbe-Grillet desenvolveu a faceta policial do mito de Édipo e chamou a atenção na sua história policial para a relação entre a literatura e a realidade. Aragon volta a tratar em "Oedipe" problemas semelhantes, mas recusando a realidade intratextual acentuada por Robbe-Grillet. Neste contexto surge uma narrativa na qual os diferentes elementos do romance policial são utilizados a negativo. "Oedipe" é assim um modelo do género, já que não se sabe quem foi morto nem por quem. Ao passo que normalmente numa narrativa policial se procura o assassino, aqui é o hipotético assassino quem procura a vítima, o motivo, etc. O assassino não sabe quem é que assassinou, nem o motivo ou o local do crime, nem tem a arma.
Todas as expectativas do leitor em relação à tensão criada no romance policial são frustradas desde o início. O assassino nem sequer é um assassino autêntico, é apenas hipotético, e o leitor pode ler todos os seus pensamentos que andam à volta do problema da ausência dos elementos já enumerados. Todas as hipóteses que Oedipe formula acabam por se revelar falsas (o crítico Delf Schmidt interpreta-as como uma paródia das "cenas falsas" do "Nouveau Roman"). O mito de Édipo, que no seu significado mais profundo é tomado a sério, é parodiado no que respeita a pormenores. O Oedipe de Aragon usa óculos escuros, está cego desde o princípio do conto, procura uma vítima como maneira de recalcar a lembrança de ter assassinado o pai, chama-se Eddy, etc. O autor comenta no texto que nada disto tem qualquer verosimilhança. Assim, a paródia simultânea do mito de Édipo e do romance policial no terceiro "Conto da pasta vermelha" apontam para a mediação do romance Les Gommes de Alain Robbe-Grillet.
(a continuar)
Imagem e créditos: Alain Robbe-Grillet (halfaya.org)
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domingo, 20 de junho de 2010
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