terça-feira, 14 de agosto de 2012





A pintora dos quadros da casa de Eyes Wide Shut


Recentemente tive oportunidade de trabalhar sobre um filme de Alfred Hitchcock, The Lady Vanishes (1938), e descobri um outro filme sobre o mesmo tema - a história verdadeira de duas senhoras canadianas, mãe e filha, que de regresso ao Canadá vindas da Índia param em Paris para assistir à Exposição Universal de 1889; a mãe adoece, o médico pede à jovem que vá buscar um medicamento e quando ela volta, a mãe desaparecera sem deixar qualquer vestígio. No final descobre-se que tinha tido peste e fora incinerada. Trata-se do filme do realizador alemão Veit Harlan, Verwehte Spuren (The Footprints Blown Away), rodado no mesmo ano que o filme de Hitchcock. Informando-me sobre este cineasta alemão, o mais importante do período do nacional-socialismo depois de Leni Riefenstahl, descobri ainda o nome de uma sua sobrinha, Christiana Susanne Harlan, que viria a casar com Stanley Kubrick em 1958. O casamento durou até à morte do realizador em 1999. Christiane Kubrick era actriz quando se conheceram na rodagem do filme Paths of Glory (1957), mais tarde estudou arte e fez carreira como pintora.

Eyes Wide Shut (1999), o último filme de Stanley Kubrick, sempre me impressionou pela bela adaptação da Traumnovelle (1926) de Arthur Schnitzler, pela banda sonora e pelos decorativos quadros da residência do casal. Agora sei quem é a autora desses quadros do filme de Kubrick.



Eyes Wide Shut
















 

 

Quadros de Christiane Kubrick

2 Donkeys

Seedboxes

Gateposts with belladonna

Summer garden and Melissa

Red roses

sábado, 30 de junho de 2012





Polifonia em 'Parábola del Palacio' de Jorge Luis Borges

(...)
       De natureza mais similar é a relação entre o texto de Borges e a parábola de Kafka "Eine kaiserliche Botschaft". Esta parábola tem sido interpretada de muitas maneiras diferentes, e dela se poderia afirmar o mesmo que Deleuze/Guattari afirmam da obra de Kafka em geral, respondendo à pergunta: “How can we enter into Kafka’s work? This work is a rhizome, a burrow.”[1] A razão pela qual é possível interpretar a obra de Kafka de tantas maneiras diferentes, é a principal característica desta obra, que os dois autores resumem deste modo: “Only the principle of multiple entrances prevents the introduction of the enemy, the Signifier and those attempts to interpret a work that is actually open to experimentation.” [2] A definição de facto estético como “inminencia de una revelación, que no se produce” [3], é o principal elemento que Borges herdou de Kafka, tal como o encontramos em "Eine kaiserliche Botschaft". O Imperador moribundo (a velha ordem, a autoridade, a concepção essencialista de texto) envia pelo seu poderoso mensageiro uma mensagem que nunca chega ao súbdito, ao “tu” distante do Sol imperial. A mensagem chega apenas através do sonho, da imaginação, acentuando assim a liberdade da leitura e a ambiguidade do texto e da mensagem. Kafka e Borges, pertencendo embora à Modernidade, antecipam teses fundamentais das Teorias do texto do séc. XX e da Pós-Modernidade.
       Resta a nostalgia da “palavra do Universo”, a que o ser humano não tem acesso. Só Deus poderia entender essa palavra e a sua infinita polifonia. Só a memória de Deus poderia ser infinita e eterna. A memória humana, conservada nas instituições da Literatura e da Biblioteca, não é eterna nem infinita. Repetidamente Boeges exprime a nostalgia pela metafísica perdida, e o desejo de totalidade, de ordem no universo. Em "Parábola del Palacio", isso traduz-se na ficção da recriação do mundo pelo poeta numa composição poderosa, constituída por uma só palavra, a palavra do universo: “Al pie de la penúltima torre fue que el poeta (que estaba como ajeno a los espectáculos que eran maravilla de todos) recitó la breve composición que hoy vinculamos indisolublemente a su nombre (...) El texto se ha perdido; hay quien entiende que constaba de un verso; otros, de una sola palabra.” [4]
 
       Este texto improbable gozaria das virtudes da representação conseguida e perfeita: “Lo cierto, lo incredible, es que en el poema estaba entero y minucioso el palacio enorme, com cada ilustre porcelana y cada dibujo en cada porcelana y las penumbras y las luces de los crepusculos y cada instante desdichado o feliz de las gloriosas dinastías de mortals, de dioses y de dragones que habitaron en el desde el interminable pasado.” [5] Aqui temos mais um exemplo de enumeração em Borges para reproduzir a realidade, neste caso o palácio do Imperador. Na verdade, o palácio é uma metáfora para os ditames da realidade exterior e da representação estética. O exemplo mais conhecido na obra de Borges de tentativa de dar a realidade em toda a sua multiplicidade e complexidade é o Aleph. Mas Borges conhece bem as limitações dos possíveis prismas artísticos, dos vários Alephs, sejam eles simulacros ou verdadeiros. Se o universo for infinito, a ideia de totalidade na arte (a representação conseguida na “palavra do universo”), ou na enumeração, não faz o menor sentido, pois será sempre incompleta, parcial; em segundo lugar, da ausência de tempo, de História, de perspectiva linear, causal, resulta a incapacidade de ordenar, de perspectivar. A enumeração apenas reproduz a desordem da realidade, e a representação em arte (mimésis) é impossível. Mas como se continua a pensar arte em termos de representação, todo o espelho se torna para o artista um verdadeiro pesadelo.[6]
 
       Ao mesmo tempo, subsiste uma imensa nostalgia da coincidência e harmonia dos dois universos, da arte e da realidade, e da possibilidade de a arte dizer, nomear a realidade. Esse é o “facto estético” que Borges herda de Kafka, para quem tudo é ainda representação. A realidade é sonho para Kafka, o sonho traz a realidade, a realidade é ainda representável. Embora a realidade – a mensagem imperial – seja inalcançável para Kafka, aquilo que nos é dado sempre é o plano do sonho, da arte, da representação. Borges tem em comum com Kafka a visão lúcida e céptica perante uma realidade social que só pode alcançar-se pela ironia. Nessa visão crítica da sociedade, são semelhantes. Mas para Kafka a arte tem ainda o poder de representação, ainda é habitável. Para Borges, é inalcançável, é infindável, o segredo que o mensageiro transporta não chega nunca, fica sempre aquém da existência humana. Para Borges, a arte não é representação do real. A realidade é dura demais e a arte situa-se noutro plano, não cria nem muda a realidade, como em Yourcenar. Em vez disso, chama a atenção para os limites do humano, para a tragédia da condição humana – a realidade sociológica e ontológica, impiedosa e imperante, impõe-se, tal como vemos no final de "Parábola del Palacio". Nesta sua visão céptica do poder redentor do verbo poético e do seu poder de representação, Borges aproxima-se do pensamento estético vienense do séc. XIX, que escolhe o silêncio como condenação da palavra poética, por não ser capaz de exprimir a realidade.
 
       Ao mesmo tempo que aspira à revelação metafísica, à totalidade, Borges mostra verdadeiro terror do infinito, como mostra a personagem Funes el Memorioso, o homem que não consegue esquecer.[7] Aqui fala da recordação como “Lo recuerdo (yo no tengo derecho a pronunciar esse verbo sagrado, sólo un hombre en la tierra tuvo derecho y esse hombre há muerto)”.[8] Tal como no poema "Everness", só Deus conserva tudo na sua “profética memoria”.[9] Em "La Biblioteca de Babel", de Ficciones (1944), distancia-se claramente dessa verdade contida na mensagem metafísica: “la Biblioteca incluye todas las estructuras verbales, todas las variaciones que permitem los veinticinco símbolos ortográficos, pero no un solo disparate absoluto.” [10] A única ordem possível é a desordem “que, repetido, sería un ordem, el Orden”. Este é o único lenitivo para a saudade da metafísica perdida: “Mi soledad se alegra com esa elegante esperanza.”[11] Daí o elogio da forma curta e concisa, mas ao mesmo tempo a continuação da tentativa de enumeração paratáctica em várias descrições da realidade exterior na sua obra. Mesmo sem a capacidade para descrever a complexidade do real dada na hipotaxe, a parataxe corresponde mais ao rizoma na obra de Borges, à rede de relações que estabelece entre textos, sem contudo estabelecer uma hierarquia. O que aparece na obra de Borges é, assim, o próprio mundo dos livros e dos textos, a Biblioteca, que se substitui à realidade exterior, aliás com toda a nostalgia do mundo real como no poema "El Outro Tigre". Borges parte de universos literários e recria-os. Aceitando a não-totalidade, a não-solução dos enigmas, a não-revelação, ele acaba por continuar a colocar questões metafísicas, mesmo sem acreditar na metafísica. A aspiração romântica do poeta em "Parábola del Palacio" é recriar o universo pelo poder ideal da palavra. Esse ideal revela-se utópico. A realidade impõe-se na crueza dos seus limites: a morte e o esquecimento. A palavra do universo permanece como demanda sem fim, a arte é a arte do inacabado, do impossível.
 
       Para concluir, gostaria de situar estes dois textos de Borges e de Kafka no quadro de uma mudança de paradigma na transição da Modernidade para a Pós-Modernidade, mudança essa mais acentuada em Borges, mas manifestando-se já claramente em Kafka. Resumindo e esquematizando, às noções estáticas de Livro e Biblioteca correspondem as noções dinâmicas de Texto e Escrita. À Intersubjectividade das teorias essencialistas de Literatura correspondem a Intertextualidade das modernas teorias textuais do séc. XX. A perspectiva monológica da estética da representação é substituída pelo dialogismo da estética pós-moderna e pela desconstrução. A noção de Tempo é substituída pela noção de Espaço, a Árvore de conhecimento hierárquica é substituída pelo conceito multirelacional de Rizoma. O Labirinto da Modernidade dá lugar à Rede, um labirinto sem saída única, i. e., sem metafísica. Finalmente, os conceitos aristotélicos de identidade, substância, causalidade e definição dão lugar aos conceitos de analogia, relação, oposição não-exclusiva, e portanto de dialogismo e ambivalência.[12]
 
       Na verdade, e muito embora os Imperadores e Poetas dos três textos analisados se oponham entre si e não criem uma relação de diálogo, a prática dos três autores, nomeadamente a de Borges, situa-se já claramente na Pós-Modernidade, pela sua relação dialógica, intertextual e dinâmica com outros textos, sem os quais o leitor não pode estabelecer toda a riqueza potencialmente contida nesta "Parábola del Palacio".

Ana Maria Delgado
Instituto Camões / Georgetown University
Obras citadas
 
Balderston, Daniel, Borges, realidades y simulacros. Buenos Aires: Biblos, 2000.
 
Belitt, Ben, “The enigmatic predicament: some parables of Kafka and Borges”. Tri-Quarterly 25, 1972, p. 268-291.
 
Bernstein, Leonard, Young People’s Concerts. (Videorecording): with the New York Philharmonic / CBS. West Long Branch, NJ: Kultur Video, 2004.
 
Blüher, K. H., “Postmodernidad e intertextualidad en la obra de Jorge Luis Borges”, in: Blüher, K. A. / de Toro, A. Jorge Luis Borges. Variaciones interpretativas sobre sus procedimientos literarios y bases epistemológicas. Frankfurt am Main: Vervuert Verlag, 1992.
 
Boegeman, Margaret, “From Amhoretz to Exegete: The Swerve from Kafka by Borges”, in: Alazraki, Jaime. Critical Essays on Jorge Luis Borges. Boston: G. K. Hall, 1987, p. 173-191.
 
Borges, Jorge Luis, Obras completas de Jorge Luis Borges. Buenos Aires: Emecê, 1974.
 
Deleuze, Gilles, Différence et répétition, Paris : PUF, 1968.
 
Deleuze, Gilles / Guattari, Felix, Kafka – toward a minor literature. Minneapolis: University of Minnesota Press,  1986.
 
Gilles Deleuze / Felix Guattari, “Rhizome”, in: A thousand plateaus: capitalism and schizophrenia. Minneapolis: University of  Minnesota Press, 1987.
 
Jameson, Fredric, “Post-modernism, or the cultural logic of late capitalism”. NLR, 146, July/August 1984.
Kafka, Franz, Beim Bau der chinesischen Mauer : Prosa und Betrachtungen aus dem Nachlass. Leipzig: Gustav Kiepenheuer, 1985.
 
Kennedy, Michael, Oxford dictionary of music. Oxford; New York: Oxford University Press, 2006.
 
Kristeva, Julia, “Word, Dialogue and Novel”, in: Toril Moi, The Kristeva reader. New York: Columbia University Press, 1986.
 
Lowes, John Livingston, The road to Xanadu: a study in the ways of the imagination. Princeton, N. J.: Princeton University Press, 1986.
Nünning, Ansgar, Metzler Lexikon der Literatur- und Kulturtheorie. Stuttgart; Weimar: Metzler, 1998.
 
Politzer, Heinz, “Zwei kaiserliche Botschaften. Zu den Texten von Hofmannsthal und Kafka”. Modern Austrian Literature, Volume 11, Number 3-4, 1978. p. 104-122.
 
 Schlaffer, Heinz, Borges. Frankfurt am Main: Fischer, 1993.
 
Teyssot, Georges, “Specular relation”. Assemblage, Nº 20, 1993. p. 78-9.
Toro, Alfonso de, “Überlegungen zur Textsorte ‘Fantastik’ oder Borges und die Negation des Fantastischen: rhizomatische Simulation, ‘dirigierter Zufall’ und semiotisches Skandalon”. Schenkel / Schwarz / Stockinger / de Toro (ed.), Die magische Schreibmaschine. Aufsätze zur Tradition des Phantastischen in der Literatur. Frankfurt am Main: Vervuert Verlag, 1998.
 
Yourcenar, Marguerite.Borges ou le Voyant”, in: En pélerin et étranger. Paris: Gallimard, 1989.
--  Nouvelles Orientales. Paris : Gallimard, 1963.


[1] Cf. Gilles Deleuze/Felix Guattari, Kafka – Toward a Minor Literature, Minnesota, 1986, p. 3.
[2]  Cf. id. ibid.
[3]  Cf. Other Inquisitions, (1950), in: J.L.B., Obras Completas,  p. 635.
[4] Cf. p. 801.
[5] Id. ibid.
[6] Cf. o poema "Los Espejos", em El Hacedor, p. 814-5.
[7]  Em Artificios, 1944, talvez uma variação da personagem de Hitchcock Mr. Memory, no filme The 39 Steps.
[8]  Cf. id. ibid., p. 485.
[9]  Cf. El Otro, El Mismo, 1964, p. 927.
[10]  Cf. p. 470.
[11]  Cf. p. 471.
[12]  Cf. Julia Kristeva, op. cit., passim.

domingo, 10 de junho de 2012




Polifonia em 'Parábola del Palacio' de Jorge Luis Borges

(...)

       Ler a 'Parábola del Palacio', breve texto publicado em 1960 no livro central de Borges El Hacedor, traz necessariamente à memória dois outros textos mais antigos, de autores bem conhecidos de Borges, o primeiro de Franz Kafka, a parábola 'Eine kaiserliche Botschaft', publicada em 1919 na narrativa Beim Bau der chinesischen Mauer, o segundo de Marguerite Yourcenar, a novela inaugural das suas Nouvelles Orientales, 'Comment Wang-Fô fut sauvé', de 1938.


       A intertextualidade com Kafka não é uma surpresa, já que Borges traduzira em 1938 nove contos de Kafka para espanhol, incluindo Beim Bau der chinesischen Mauer. Este conto de Kafka era o seu preferido, e contém o gérmen do que viria a ser o essencial da obra de Borges, sendo 'A Lotaria de Babilónia', 'As Ruínas Circulares' e 'A Biblioteca de Babel' aqueles textos em que a influência de Kafka é mais nítida.[1] Quanto ao segundo texto, é igualmente conhecido o interesse de Marguerite Yourcenar por Borges, a quem dedica em 1989 um belíssimo estudo intitulado 'Borges ou le Voyant', na colectânea de ensaios En pélerin et étranger. Os dois escritores conheciam-se pessoalmente e terão conversado em várias ocasiões. Une-os sobretudo uma concepção de literatura baseada no sonho, evidente no ensaio de Yourcenar, no qual louva a arte do texto de Borges, no qual “tout s’échange et devient autrement la même chose”.[2] A parábola de Kafka parte, para além de muitos outros escritos sobre o Oriente, de que era conhecedor, de um poema de Hugo von Hofmannsthal, 'Der Kaiser von China spricht', de 1897. O conto de Marguerite Yourcenar baseia-se, segundo a própria autora, num apólogo taoísta lido em 1936 na Revue de Paris.[3] Assim, a corrente originada na sequência destes textos, além de possuir implicações intertextuais que tentarei deslindar, é à partida uma ilustração da construção de literatura em Borges como escrita realizada ao longo dos tempos através de vários escritores, tal como a descreve no conto 'El Inmortal', de 1949.

       Tendo como personagens principais figuras míticas de imperadores orientais e figuras de artistas – um “tu” que sonha a mensagem do imperador em Kafka, o pintor Wang-Fô em Yourcenar, e o poeta em Borges, o tema dos três contos é o poder do imperador, que é absoluto, excepto pelo contrapoder do artista, que lhe equivale ou o ultrapassa. São textos sobre a comunicação estética, o poder da arte e a criação poética. A 'Parábola del Palacio' é composta por duas partes, a primeira a descrição que o Imperador Amarelo (o mais antigo e mítico Imperador da China, a quem é atribuído o Taoísmo) faz ao Poeta dos labirínticos domínios do seu palácio imperial. A segunda relata como o poeta, chegados à torre do palácio, recita uma breve composição que faz desaparecer o palácio. A parábola termina sem lição moral, num tom desiludido e desencantado em relação ao poder de representação da arte.


       Não é a primeira vez que Borges escreve sobre este tema. Em 1952, no volume Otras Inquisiciones, trata o tema do Imperador e do Poeta no texto 'El Sueño de Coleridge'. Aqui Borges relata a experiência onírica que, segundo o próprio Coleridge, o terá inspirado a escrever o poema 'Kubla Khan'. Borges traça o paralelo com o sonho do imperador mongol que dá o nome ao poema e que, cinco séculos antes, sonhara um palácio e o edificara segundo essa visão: “Un imperador mongol, en el siglo XIII, sueña un palacio y lo edifica conforme a la visión; en el siglo XVIII, un poeta inglés que no pudo saber que esa fábrica se derivó de un sueño, sueña un poema sobre el palacio.” [4] A explicação final para este paralelismo, a cinco séculos de distância é, segundo Borges, a seguinte: “Acaso un arquetipo no revelado aún a los hombres, un objeto eterno (...), esté ingresando paulatinamente en el mundo; su primera manifestación fue el palacio; la segunda el poema. Quien los hubiera comparado habría visto que eran esencialmente iguales.” [5]


       Ora a questão que se coloca é a seguinte: como é que o poeta e o imperador, que em 'El Sueño de Coleridge' são manifestações da universalidade do Espírito e do sentido ecuménico da Arte, se tornam em opostos inconciliáveis na 'Parábola del Palacio'? Esta é a questão que coloca este labirinto de textos. Em vez de sugerir uma saída do labirinto textual, vou propôr mais alguns fios para adensar o problema, à medida que tentamos resolver a charada. Embora Borges não refira Marguerite Yourcenar, conhecia sem dúvida o belo conto 'Comment Wang-Fô fut sauvé'. Nesse conto, os dois mundos do Imperador e do pintor Wang-Fô são opostos e inconciliáveis. A arte é ao mesmo tempo a condenação e a salvação do artista. Wang-Fô é condenado à morte pelo imperador, que acha os quadros do pintor demasiado belos, demasiado perfeitos, dando uma ideia errada do mundo e dos homens. Simultaneamente, nesse poder de transfiguração da realidade circundante, a arte salva Wang-Fô, que se evade do mundo da corte do imperador sem que ninguém possa detê-lo. Esta concepção de arte é ainda romântica e metafísica – o mundo do Imperador opõe-se irremediavelmente ao mundo da arte, que lhe é muito superior, e ao qual não tem qualquer capacidade de acesso, nem de apreensão do seu conteúdo, nem no final, para interferir na fuga de Wang-Fô e do seu discípulo. É  certamente à luz desta antinomia romântica arte/vida que podemos compreender a mudança no texto de Borges desde a intrínseca similitude entre Imperador e Poeta de 'El Sueño de Coleridge', e a oposição irredutível entre os dois que encontramos na 'Parábola del Palacio'.

(a continuar)

[1] Cf. Margaret Boegeman, 'From Amhoretz to Exegete: The Swerve from Kafka by Borges', in: Jaime Alazraki, Critical Essays on Jorge Luis Borges. Boston, 1987, p. 173-5.
[2] Cf. Marguerite Yourcenar, 'Borges ou le Voyant', in: M. Y. , En pélerin et étranger, Paris, 1989.
[3] Cf. Revue de Paris, 43.4 (15 février 1936), p. 848-859.
[4] Cf. Jorge Luis Borges, Obras completas de Jorge Luis Borges. Buenos Aires: Emecê,1974, p. 644.
[5]  Cf. id. ibid., p. 645.

sábado, 19 de maio de 2012


Polifonia em Parábola del Palacio de J. L. Borges

(...)

       Um dos traços que mais claramente separa Borges dessa estética representacional ou mimética é o carácter de simulacro dos seus textos, o não-reconhecimento de uma origem, de um modelo ou arquétipo a imitar.[1] No Prefácio ao seu livro de 1968 Différence et répétition, o filósofo francês Gilles Deleuze propõe o exemplo do conto de Jorge Luis Borges “Pierre Menard, autor del Quixote” para ilustrar a relação de correspondência entre os conceitos de repetição e diferença: “On sait que Borges excelle dans le compte rendu de livres imaginaires. Mais il va plus loin lorsqu’il considère un livre réel, par exemple le Don Quichotte, comme si c’était un livre imaginaire, lui-même reproduit par un auteur imaginaire, Pierre Ménard, qu’il considère à son tour comme réel. Alors la répétition la plus exacte, la plus stricte a pour correlat le maximum de différence.”[2] Para Deleuze, os conceitos de diferença e repetição substituem os conceitos hegelianos de identidade e contradição, sendo a Modernidade caracterizada pela falência da representação, pela perda das identidades e pela descoberta das forças que agem sob a representação do idêntico[3], e afirma que o mundo moderno é um mundo de simulacros.[4] O simulacro difere da cópia, representação ou mimésis pela relação de não-dependência, de distância total em relação a um hipotético original, já que é uma cópia sem original.[5] Esta perda da origem contida no simulacro corresponde à perda da historicidade e das grandes narrativas na nossa cultura. O reconhecimento da realidade como pólo inalcançável, bem como a afirmação simultânea da arte como pólo independente dessa mesma realidade, correspondem à falência da representação na estética ocidental que caracteriza o pós-modernismo. A caracterização do texto de Borges como simulacro mostra o reconhecimento por Deleuze, já em 1968, de uma característica própria da obra deste escritor que faz dele, antes do mais neste traço que consideramos essencial, um precursor do pós-modernismo.


       A alguns anos de distância, em 1980, Deleuze, escrevendo então de parceria com Guattari, continua a explorar a característica não-mimética da literatura e propõe a imagem do rizoma para caracterizar quer o texto literário, quer o texto musical moderno: “Le système-radicelle, ou racine fasciculée, est la seconde figure du livre, dont notre modernité se réclame volontiers.”[6] O livro-radícula distingue-se do livro-raiz: “Un premier type de livre, c’est le livre-racine. L’arbre est déjà l’image du monde, ou bien la racine est l’image de l’arbre-monde. C’est le livre classique, comme belle interiorité organique, signifiante et subjective (les strates du livre). Le livre imite le monde, comme l’art, la nature”.[7] Diferentemente o livro-radícula: “le livre n’est pas image du monde, suivant une croyance enracinée. Il fait rhizome avec le monde, il y a évolution aparallèle du livre et du monde, le livre assure la déterritoralisation du monde”.[8] O conceito de mimésis, que serve ainda para o livro-raiz, não é suficiente para o livro-radícula, ou livro-rizoma: “Le mimétisme est un très mauvais concept, dépendant d’une logique binaire, pour des phenomènes d’une tout autre nature.”[9] Nesta definição de escrita, a literatura e a música ficam próximas: “Écrire, faire rhizome, accroître son territoire par déterritorialisation, étendre la ligne de fuite jusqu’au point où elle couvre tout le plan de consistance en une machine abstraite.”[10] Os princípios que regem o desenvolvimento do rizoma e o distinguem da árvore do conhecimento (que não deverá ser confundida com a árvore bíblica do conhecimento), são os princípios de heterogeneidade e de conexão: “n’importe quel point d’un rhizome peut être connecté avec n’importe quel autre, et doit l’être. C’est très différent de l’arbre ou de la racine qui fixent un point, un ordre.”[11] Também a música é comparável ao rizoma: “La musique n’a pas cessé de faire passer ses lignes de fuite, comme autant de ‘multiplicités à transformation’, même en renversant ses propres codes qui la structurent ou l’arbrifient; c’est pourquoi la forme musicale, jusque dans ses ruptures et proliférations, est comparable à la mauvaise herbe, un rhizome.”[12]


       Encontramos a mesma imagética do reino vegetal em Pierre Boulez para descrever a música:[13] “Vous la plantez dans un mauvais terreau, et tout d’un coup, elle se met à proliférer comme de la mauvaise herbe.” Esta descrição da música como proliferação corresponde à concepção de melodia que encontramos em Bernstein: o que distingue a melodia de uma simples canção (“tune”), que é acabada, fechada em si mesma, repetitiva, é a existência de um tema (“theme”) a desenvolver.[14] A música é aqui (na transformação da desordem, do caos em ordem, em cosmos) bem sucedida onde a literatura falha, também porque está livre da obrigação e responsabilidade da representação. Na Literatura, imitação é geralmente sinónimo de mimésis, cópia, representação, e tem a ver com o conceito filosófico de identidade.[15] Na Música, que não é mimética, a imitação significa desenvolvimento, variação, e é elemento constitutivo do cânone, contraponto, fuga. Não representando o mundo real, ela é sinónimo de vida como movimento, mudança, evolução, crescimento.[16] A imitação literária a que costumamos chamar mimésis facilmente se torna limitadora e até mesmo entorpecedora, ao passo que a imitação musical, sinónimo de desenvolvimento, é libertadora, ou melhor ainda, é a própria liberdade enquanto vida, movimento. [17]


       E podemos agora fazer a ponte com o texto de Borges que nos propomos analisar.  Borges é frequentemente entendido como um autor demasiado intelectual, cerebral, seco, os seus escritos como confusos, complexos, intrigantes. Será meu propósito mostrar, neste ensaio, a qualidade musical do texto borgesiano, com as implicações que atrás foram expostas, exactamente através dessa grande complexidade sinfónica que o caracteriza. A minha proposta de leitura vai no sentido de entender a intertextualidade que é seu traço primeiro, sempreviva e autêntica “chambre d’échos”,[18] como presença de várias vozes, ou melhor ainda:  vários temas e variações na sua escrita. Tentarei escutar essas várias vozes e, ousarei mesmo dizê-lo agora, melodias nela presentes, fazendo jus ao Borges lírico, que na Arte Poética exprime o desejo de dar à sua escrita uma qualidade musical. [19]

(...)

(a continuar)

In: Alma América. In honorem Victorino Polo. Tomo I. Ed. Vicente Cervera Salinas / María Dolores Adsuar Fernandez. Universidad de Murcia, 2008

[1] Cf. Georges Teyssot, “Specular relation”, in: Assemblage, Nº 20, 1993, p. 79: “Through (…) a nomadism that inserts itself between dichotomies, thought comes in some measure to free itself from the ‘fundamental’ notion of origin, by which traditionally the copy follows the model and the type the archetype.”
[2] Cf. Gilles Deleuze, Différence et Répétition, Paris 1968, p. 1.
[3] Cf. id. ibid., p. 1: “la pensée moderne naît de la faillite de la représentation, comme de la perte des identités, et de la découverte de toutes les forces qui agissent sous la représentation de l’identique.”
[4] Cf. id. ibid., p. 1: “Le monde moderne est celui des simulacres”.
[5] Cf. Fredric Jameson, “Post-modernism, or The Cultural Logic of Late Capitalism”, in: NLR, 146, July/August 1984, p. 89: “’simulacrum’ – the identical copy for which no original has ever existed.”
[6]  Cf. Gilles Deleuze / Félix Guattari, “Rhizome”, in: Capitalisme et Schizophrénie. Mille Plateaux. Les Éditions de Minuit, Paris 1980, p. 12.
[7]  Cf. id. ibid., p. 11.
[8] Cf. id. ibid., p. 18.
[9] Cf. id. ibid.
[10] Cf. id., ibid., p. 19.
[11] Cf. id. ibid., p. 13.
[12] Cf. id. ibid., p. 19.
[13] Cf. id. ibid.
[14] Cf. Leonard Bernstein, Young People’s Concerts, “What is a Melody?”, 21 de Dezembro de 1962.         
[15] Cf. Gilles Deleuze, Différence et Répétition, p. 1: “O primado da identidade (...) define o mundo da representação.” Mas também: “o pensamento moderno nasce do falhanço da representação, como da perda das identidades (...) o mundo moderno é o mundo dos simulacros.”
[16] Cf. Leonard Bernstein, “Young People’s Concerts”, a 13 de Dezembro de 1958, “What Makes Music Symphonic?”
[17] Em 1997 Deleuze delimita Literatura e escrita do conceito de mimésis nos seguintes termos: “To write is certainly not to impose a form (of expression) on the matter of lived experience. Literature rather moves in the direction of the ill-formed or the incomplete (…) Writing is a question of becoming, always incomplete (…) To become is not to attain a form (identification, imitation, Mimesis) but to find the zone of proximity, indiscernibility, or undifferentiation (…)”. In: G.D., “Literature and Life”, Critical Inquiry 23, Winter 1997, p. 225.
[18] Cf. Rimbaud e Roland Barthes.
[19] Cf. a este respeito ainda o cap. “Variaciones del mar”, de Vicente Cervera Salinas, in: La poesia de Jorge Luis Borges: Historia de una eternidad. Univ. de Murcia, 1992.