domingo, 13 de abril de 2014

"A Mulher do Chapéu de Palha" de Graça Pina de Morais: uma demanda sem Graal III


 

       Nesta altura da narrativa a mulher do chapéu de palha perde o chapéu, levado pela forte ventania: “Levou de súbito uma mão assustada aos profusos e curtos cabelos desgrenhados pelo vento. ‘Ai que perdi o meu chapéu! Era feio mas fazia-me jeito! Gostava dele!” (ibid.). Mas é então que duas outras mulheres de idade se aproximam com o chapéu para o devolver à sua dona - gente modesta, simples, com um olhar doce que a narradora descreve: “Esse olhar era tranquilo, tranquilidade que conseguiram transmitir à alma inquieta e crispada da mulher.” Nelas encontra algo que reconhece como seu, a gentileza, “que é sem dúvida uma qualidade da alma” (p. 39). E, tendo perguntado como a conheciam, elas respondem “Conhecíamos a senhora por causa do chapéu!”, transformando-se o velho e feio chapéu no elemento principal da identidade da mulher e justificando o título do conto. Se a pergunta dirigida na segunda metade do conto ao "ser transcendente" não chega ao destinatário por inexistência dele, o certo é que no texto há uma resposta para a comunicação, dada por estas duas velhotas simpáticas, que reconhecem chapéu e dona e o vêm entregar. No sorriso agradável e fraterno que as une nesse momento de reconhecimento há uma resposta, talvez não a resposta plena de uma transcendência perfeita, mas pelo menos a resposta possível de uma fraternidade humana.

       A categoria de “Ereignis” (acontecimento, evento) é tão antiga como a própria literatura, identificada nalguns casos mesmo como o relato do novo, da novidade, como por exemplo no género literário conhecido como “novela”, que é a narrativa de um “acontecimento inaudito”: sem novidade, não há literatura. Mas a modernidade parece inverter os termos: Jorge Luís Borges, por exemplo, afirma que toda a escrita é uma re-escrita e que não há nada de novo à face da terra. O novo, a novidade, o acontecimento, o evento passa para os média com o significado de espectáculo, perdendo assim aos poucos o carácter de evento, desvirtuando-se. A literatura passa a narrar a ausência de acontecimento, o não acontecer das coisas. Paradigma disso é a peça de Beckett Waiting for Godot, En attendant Godot. A condição humana passa a ser caracterizada como uma infinita espera, sem qualquer sentido, de algo que nunca chegará porque não existe. A pós-modernidade irá desenvolver e desconstruir todas as grandes narrativas que constituíam a tradição ocidental. Derrida interpreta em 1985, neste contexto, uma outra parábola de Kafka como símbolo de qualquer texto, literário, filosófico ou outro, como “espera infinita” – trata-se da parábola “Vor dem Gesetz”, “Diante da lei”[1], que se encontra no capítulo “Die Kathedrale” do romance Der Prozess. Também conhecida como “Türhüterlegende“ ou „Türhüterparabel“, esta parábola foi publicada em 1915 na revista Selbstwehr e em 1919 na colectânea Ein Landarzt, finalmente no romance publicado em 1925. Na interpretação de Derrida, a lei é atópica, um nada que, num lugar vazio, difere incessantemente o acesso à lei[2]. Estar diante da lei é o mesmo que estar diante do texto literário – a sua intangibilidade não vem de uma essência escondida, mas da sua própria acessibilidade[3].

       No caso do presente texto de Graça Pina de Morais, se a mensageira é apenas um desejo da narradora e não existe nem mensagem – apenas uma interrogação – nem destinatário, há no entanto algo – tal como na parábola de Kafka “Eine kaiserliche Botschaft” - que interrompe o vazio total, mesmo acentuando o silêncio. Se o evento pode definir-se como aquilo que irrompe, que se destaca na continuidade do acontecer, que sobressai no fluir quotidiano, então neste conto é a própria mulher do chapéu de palha que acaba por ser o evento. É ironia da vida que seja um objecto comum, o seu velho e feio chapéu de palha, que se transforma em elemento de identidade e de expectativa. Graça Pina de Morais refere-se num passo de A Origem ao que entende por “vida”: “nada acontecia naquela casa. Se se pode chamar Vida a uma sequência de acontecimentos, aquelas raparigas não a tiveram; mas a vida não é isso e, nos seres solitários, o vazio exterior vai criando, pelo contrário, uma densidade existencial funda, apurada e transcendente.”[4]

       A diferença da perspectiva da autora, relativamente a uma posição como a de Borges na definição do “facto estético” – algo que está para acontecer mas que fica sempre no limiar desse mesmo acontecer, pode verificar-se num importante passo do conto “Desencontro”, publicado em O Pobre de Santiago, no qual Lúcia tenta descrever a Carlos o que sente ao ouvir música clássica: “Era uma espécie de alegria funda tumultuosa... Era como quem vai chegar... Como alguém que está perto de alguma coisa desconhecida e total. Como se tudo que tenho, de filha dum Deus, se desprendesse dentro de mim! Uma exaltação do ser, mas do próprio ser humano, porque eu sou terrena. Apetecia-me gritar: ‘Mais! Mais!’ para alcançar qualquer coisa de completo, que pressinto que quase posso tocar. É como quem está a chegar... mas não chega... (...) Não é uma morte por desânimo da vida, mas por excesso, porque tudo é demasiado à nossa volta.”[5]

       Assim, o que acontece em A Mulher do Chapéu de Palha é o comunicar desse fundo existencial, que se confunde com a situação da escrita do texto, que a narradora partilha com o leitor como uma busca, uma demanda, mesmo se uma demanda sem Graal. A capacidade crítica substitui o relato do evento, a interrogação substitui as respostas no texto. Essa demanda sem Graal que é a escrita do texto confunde-se com a própria vivência existencial, daí o carácter metaficcional do conto não ser propriamente discursivo, mas sim implícito. É a mulher do chapéu de palha que se torna o próprio evento, a própria exterioridade/interioridade no texto, com a sua capacidade de interpelação do real e do sentido da vida. Dela emana uma mensagem que é uma pergunta, e um sentido que é um encontro humano. Teresa Almeida destaca na obra de Graça Pina de Morais esta “comunicação misteriosa que se estabelece entre os seres e entre estes e o universo”, conseguindo "apagar a crueldade da vida, como se houvesse sempre lugar para um deslumbramento inicial” [6].

       É, no fundo, uma postura de vida e escrita que implicando e incluindo a interrogação, seja ela qual for, dá como inequívoca resposta um muito largo “sim”[7], aceitando no final a sua identidade e diferença, mesmo se anónima, de ser humano e escritora, depois do reconhecimento pelas duas gentis senhoras mais velhas que, na sua simplicidade e modéstia, se tornam espectadoras/leitoras e cúmplices do texto: “Segurou com ambas as mãos as abas do chapéu e enterrou-o na cabeça, escondendo assim os vastos cabelos desgrenhados e o olhar sonhador e brilhante. Era, na realidade, uma mulher absolutamente anónima, indistinguível de qualquer outro ser humano no meio de uma multidão mas o seu feio e insólito chapéu tornava-a diferente” (p. 45-46).

       Gostaria de terminar citando Teresa Almeida, que sublinha a força da voz de Graça Pina de Morais: “Poucas vezes a literatura portuguesa conseguiu conciliar de uma forma tão radical a denúncia implacável da hipocrisia do ambiente social e familiar com a compreensão instintiva da grandeza e da miséria da condição humana.”[8] Por isso, salienta Teresa Almeida, “Um dia será necessário percorrer os textos das mulheres que a história esqueceu. Algumas registaram o seu testemunho em manuscritos que poucos tiveram o privilégio de ler; outras viram os seus livros rodeados por uma espécie de muro de silêncio, interrompido por uma ou outra voz dissonante. Graça Pina de Morais pertence a este segundo grupo – a sua obra, apesar dos prémios e das críticas, não ocupa dentro do cânone literário o lugar a que teria direito.”[9] Junto assim a minha voz crítica à de Teresa Almeida, Fátima Maldonado, Graça Abranches, Manuel Poppe e João Gaspar Simões[10], para que esta singular escritora portuguesa tenha finalmente o reconhecimento devido, enriquecendo a nossa herança literária com o cada vez maior grupo de vozes femininas, tão diferentes entre si.

Manique, 16 de Março de 2011

Ana Maria Delgado
( Universidade de Leipzig, Instituto Camões, CLEPUL)
Texto publicado na revista Colóquio Letras nº 184, Setembro/Dezembro 2013, p. 170-180



[1] Jacques Derrida, “Devant la loi”. In: Alan Udoff, Kafka and the contemporary critical performance: Centenary Readings. Bloomington: Indiana University Press, 1987, p. 128-149.
[2] Cf. Pierre Delayin, “Préjugés, devant la loi”, Setembro de 2008, Blog de l’orloeuvre.
[3] Cf. Rafael Haddock-Lobo, “Considerações sobre um ‘hiper-ceticismo’ em Jacques Derrida”. In: Dubito ergo sum. Páginas de ceticismo, 2008, passim.
[4] Cf. A Origem, edição citada, p. 31.
[5] Graça Pina de Morais, O Pobre de Santiago. Lisboa: Antígona, 22001, p. 117.
[6] Teresa Almeida, “Um olhar implacável sobre o mundo”. In: Expresso, 21 de Julho de 2001, p. 45.
[7] Refiro-me ao final da belíssima conferência que fechou o ciclo das Harvard Lectures de Leonard Bernstein, “The Poetry of the Earth”, na forma de um “Credo”, uma “Profissão de Fé”. Referindo-se à Unanswered Question de Charles Ives, afirma Bernstein: “I believe (…) that Ives’s Unanswered Question has an answer. I’m not longer quite sure what the question is, but I do know the answer – and the answer is ‘Yes’.”
[8] Teresa Almeida, op. cit.
[9] Id. ibid.
[10] Vd. Manuel Poppe, op. cit., p. 136: “Bernardo Santareno sabia disso tudo, tal qual não ignorava a riqueza humana de Graça Pina de Morais nem as suas grandes – invulgares – qualidades de ficcionista, que, obviamente, não escaparam a João Gaspar Simões: ‘Sejam quais forem as restrições que venham a fazer-se a este romance, é fora de dúvida que A Origem pertence ao número de obras excepcionais da nossa ficção contemporânea”, escrevia ele a páginas 429 da Crítica III.”