quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Midnight in Paris e o conto de E. T. A. Hoffmann ‘Der goldne Topf’: a herança romântica de Woody Allen I

 

 
 

 
 
 

Midnight in Paris e o conto de E. T. A. Hoffmann ‘Der goldne Topf’: a herança romântica de Woody Allen [1]

“Gil: The past is not dead, in fact it is not even past!” [2]
Woody Allen, Midnight in Paris (2011)
 

       A cena de abertura de Manhattan, o inesquecível filme que Woody Allen dedicou a Nova Iorque em 1979, mostra-nos uma série de imagens da cidade que o realizador considera sua, a preto e branco e acompanhadas pela“Rhapsody in Blue” de George Gershwin.  A personagem de Isaac Davis, alter ego de Allen no filme, liga esta descrição da cidade, vista a uma certa distância, à designação de “romantic”: “Chapter One: He adored New York City. He idolized it all out of proportion. Uh, no, make that, he-he… he romanticized it all out of proportion (…) He was too romantic about New York city, as he was about everything else.” A percepção de Isaac de Nova Iorque como “a town that existed in black and white and pulsated to the great tunes of George Gershwin” contrasta com a sua observação final nesta sequência, apresentando a cidade como “a metaphor for the decay of contemporary culture”, mostrando a consciência crítica que tem o narrador da idealização de Nova Iorque “all out of proportion". Toda a beleza visual do filme não encontra equivalência na qualidade moral das personagens (excluindo a adolescente Tracy), e a dinâmica essencial do filme consiste nesse contraste[3]. A palavra e noção de “romântico” aparecem, neste contexto, associadas à idealização, à produção de imagens belas, sumptuosas, perfeitas, que vão servir de pano de fundo contrastivo às personagens do filme e à época contemporânea, caracterizada pela decadência cultural e moral.

 
 
       Algumas décadas depois, em 2011, Woody Allen dedica mais um filme a uma cidade, desta vez Paris, abrindo o filme com imagens da cidade-luz, acompanhadas por um tema musical de Sidney Bechet, “Si tu vois ma mère”. Em ambos os filmes a sofisticada sensibilidade musical do realizador, aliás também músico de jazz, ligou esses temas musicais às duas cidades não só por condizerem com elas atmosfericamente, mas também pela profunda relação de Gershwin com Nova Iorque e de Bechet com Paris, respectivamente. O filme Midnight in Paris vai encenar a relação de Allen com a Europa, os anos 1920, o surrealismo, a Belle Époque e, finalmente, com o romantismo, afinal com a herança cultural europeia. O herói do filme, outro alter ego de Woody Allen, Gil Pender, é também profundamente romântico, sensível, idealizando atmosferas, capaz de respirar a densidade e sentido históricos de um lugar urbano, a cidade de Paris, vista e vivenciada sempre através da música e da arte.
 
 
       Tal como Isaac Davis em Manhattan, também Gil, guionista de profissão, quer, apesar do sucesso que tem na indústria fílmica, escrever um romance e tornar-se escritor. Logo na cena inicial a seguir às imagens de uma Paris turística mas também à chuva, e ainda sobre o fundo negro do genérico do filme, ouve-se um diálogo que torna bem evidente o desencontro básico entre Gil (Owen Williams) e a noiva, Inez (Rachel McAdams): Gil está fascinado pela cidade, pela chuva, pelos anos 1920, pela vida cultural e artística de escritores, pintores e músicos que pulsa então em Paris. Gil declara que abandonaria a casa com piscina em Beverly Hills se pudesse escrever romances em Paris. Nesta altura a tela mostra-nos um cenário nos arredores de Paris representando o conhecido quadro de Monet com um lago e nenúfares e uma ponte. O cenário idílico acentua por antítese a discussão entre os dois, e Inez comenta: “You’re in love with a phantasy.” Embora Gil responda “I’m in love with you”, a música revela a verdade dos dois noivos e a situação real de Gil na relação com Inez, com o tema “Je suis seul ce soir (avec mes rêves)”. A verdade é que o desencontro entre os dois está contido na resposta dada explicitamente por Inez à pergunta de Gil na cena inicial, apelando à imaginação dela e do espectador simultaneamente: “Can you picture how drop dead gorgeous this city is in the rain? Imagine this city in the 20’s”[4], ao que Inez observa: “Why does every city have to be in the rain? What’s wonderful about getting wet?” Gil insiste: “I mean could you ever picture us maybe moving here after we’re married?”, mas Inez replica no seu jeito pragmático: “Oh God no! I could never live out of the US”, mostrando a falta de sintonia entre os dois. 
 
 
       Esta situação de desencontro fundamental acentua-se na cena seguinte, o jantar no hotel com os pais de Inez. O pai dela está feliz com o negócio de fusão de empresas que o levou a Paris, mas diz não gostar da política francesa, ao que Gil comenta que, em sua opinião, não se pode censurar os franceses por não quererem participar na Guerra do Iraque, o que provoca grande irritação nos pais de Inez e nela própria. Também na política se encontram em áreas distintas, republicanos mais tradicionais versus democratas, e ao comentário de Gil, acentuando que em democracia se deve respeitar a opinião contrária, os futuros sogros fazem uma cara de desagrado. O conflito prolonga-se no quarto de hotel todo em tons de dourado e amarelo de Gil e Inez, quando ela tenta convencê-lo a continuar a bem-sucedida carreira de guionista de Hollywood e largar mão da tentativa de escrever um romance.  Apesar de Gil desejar continuar a ver Paris no dia seguinte, Inez impõe uma visita turística a Versalhes com os amigos Paul e a mulher, Carol. Fora do Palácio, frente aos jardins franceses de Versalhes, Paul comenta a arquitectura do monumento e fala do estilo classicista do Palácio, embora numa cena posterior com uma guia (interpretada por Carla Bruni) fiquemos convencidos de que as informações veiculadas por Paul não são fidedignas, já que ele afirma peremptoriamente que Camille Claudel era a mulher de Rodin. Inez comenta que conseguiria viver ali: “I could get used to a summer house like this”, e a seguir quer discutir o romance de Gil com o casal amigo. Gil tenta defender a privacidade da sua escrita, mas Inez continua a explicar que a personagem principal tem uma “nostalgia shop”, e tenta ridicularizar essa personagem que, em sua opinião, tal como Gil vive no passado, bem como as pessoas que julgam que seriam mais felizes numa outra época do que naquela em que vivem, no caso de Gil a Paris dos anos 1920, sem a chuva ácida dos nossos dias, o aquecimento global, a TV, os atentados bombistas, armas atómicas, cartéis de droga, etc. Paul disserta sobre o tema: “Nostalgia is denial, denial of the painful present”, e Inez desenvolve logo a ideia: “Gil is a complete Romantic. He would be more than happy in a complete state of perpetual denial.” Paul conclui: “And the name for this fallacy is called ‘Golden Age thinking’, the erroneous notion that a different time period is better than the one one’s living in. It’s a flaw in the romantic imagination of those people who find it difficult to cope with the present.” Inez assumirá numa das cenas finais do filme, em que Gil rompe o noivado, ter passado algumas noites com Paul por ele ser “romantic”, mostrando a superficialidade com que contempla a traição a Gil e usa a palavra “romantic” (na vulgar acepção de “sentimental”, dizendo respeito a um caso amoroso). 
 
 
       Paul fala em tom de Magister dixit sem admitir réplica (mais tarde será classificado pela guia turística como “intelectual pedante”), e a cena muda para um grande plano de uma montra de joalharia onde Inez e a mãe contemplam apreciativamente uma aliança com brilhantes, perfeita para o casamento, já que poria toda a gente a olhar para a noiva na cena da troca de alianças no altar. Os valores estão assim definidos desde o início do filme, imaginação, sonho e herança cultural do lado de Gil, versus pragmatismo, sucesso mundano e dinheiro do lado de Inez e dos pais dela. As personagens do mundo contemporâneo americano são planas e caricaturadas em comparação com as personagens do mundo alternativo, mais desenvolvidas.
 
 
       Assim, pouco nos admiramos quando Gil não alinha com o casal amigo e Inez numa ida à discoteca, e decide em vez disso divagar sozinho por Paris. Ao soar das doze badaladas da meia-noite, porta para o mundo de sonho e fantasia, aparece-lhe um Peugeot amarelo antigo, da época que ele admira, e os ocupantes, em clima de festa, convidam-no a entrar e a festejar com eles. Este automóvel que evoca uma época, bem como a memória do cinema, é o instrumento para a viagem nocturna de Gil através do tempo. Em breve se encontra numa sala em clima festivo com Zelda e F. Scott Fitzgerald, ao som da música de Cole Porter “Let’s Do it (Let’s Fall in Love)”, interpretada pelo próprio compositor ao piano. Neste mundo alternativo que se desenvolve em ambiente de quase science-fiction (aliás cultivado por Woody Allen noutros filmes), Gil vai encontrar os seus semelhantes, personagens que o compreendem, aconselham e com quem se sente à vontade para conversar sobre os temas que lhe são queridos, sem a constante censura e correcção de Inez – Hemingway, Pablo Picasso, Salvador Dali, Man Ray, Gertrude Stein, que vai ler o romance de Gil e fazer-lhe sugestões, e Adriana (interpretada por Marion Cotillard). Desenvolve com Adriana uma relação especial de grande afinidade, e uma noite, passeando pela Paris dos anos 20, são abordados por uma carruagem que os convida a entrar e os transporta à Belle Époque, Chez Maxim’s, um dos sítios preferidos de Adriana. No Moulin Rouge encontram Toulouse-Lautrec, Gauguin e Degas, e Adriana deseja permanecer naquela época que considera a ideal. Nisto residirá o desencontro entre Gil e Adriana, já que desejam viver em Idades de Oiro diferentes, ela a Belle Époque e ele os anos 1920. Nesta discussão com Adriana, Gil ganha consciência do que pode significar um conceito como o de Golden Age: “Adriana, if you stay here, if this becomes your present, pretty soon you’ll start imagining another time was really the Golden Time. That’s what the present is, it’s a little unsatisfying, because life is a little unsatisfying”.
 
 
(...) a continuar




[1] Este texto foi apresentado em versão alemã como comunicação ao Congresso da Sociedade de E. T. A. Hoffmann a 20 de Abril de 2013 em Bamberg. Gostaria de o dedicar a Marina Ramos Themudo, como reconhecimento do diálogo sempre inspirador que mantemos desde o período de preparação e escrita da minha dissertação sobre E. T. A. Hoffmann e o Romantismo alemão.
 
[2] Woody Allen cita William Faulkner, Requiem for a Nun (1950): “The past is never dead. It’s not even past.”

 
[3] Vd. BAILEY, Peter J., The Reluctant Film Art of Woody Allen. Kentucky: The University Press of Kentucky, 2001, cap. 4, “Art and Idealization – I’ll Fake Manhattan”, p. 47 ss.
 
[4] A expressão “drop dead gorgeous”, aqui usada por Gil e entretanto muito popular no mundo do cinema, foi cunhada em 1985 pelo crítico de cinema e editor da revista Time Richard Nelson Corliss para descrever o desempenho de Michelle Pfeiffer no filme Into the Night.
 
Ana Maria Delgado
 
(Universidades de Hamburgo e de Rostock / Camões I.P. / CLEPUL-FLUL)

REAL

In: REAL - Revista de Estudos Alemães nº 5, Agosto de 2014, pp. 1-14.